Artigo: A casa da sogra
Artigo de Frei Betto, publicado originalmente no Jornal O Dia, sobre a importância da aprovação da reforma política para o combate à corrupção.
Por Frei Betto *
Sábado, 28 de abril, comemora-se, no Brasil, o Dia da Sogra. O calendário de festividades está repleto de dias consagrados a quase todos os galhos da árvore genealógica. Predomina, por razões óbvias, o Dia das Mães.
Faz-se de um lugar ou ambiente ‘casa da sogra’ quando alguém se julga no direito de abusar da hospitalidade de parentes ou amigos. Na casa da sogra tudo é permitido, até a má educação e a falta de higiene.
A cascata de escândalos do caso Carlinhos Cachoeira projeta o Brasil como a própria casa da sogra. Muitos políticos — há exceções, felizmente — adotam três discursos: o eleitoral, da captação de votos; o partidário, das articulações de bastidores; e o salafrário, para amealhar dinheiro e poder.
Inúmeros empresários e comerciantes se queixam de que, no Brasil, não se vencem licitações nem se obtém recurso público sem ‘molhar’ a mão de políticos e funcionários do governo. A prática já está incorporada às negociações entre empresas privadas ou pessoas e agentes públicos.
Raros os políticos brasileiros que vieram de berço esplêndido. E todos sabem quão cara é uma campanha eleitoral. Essa vulnerabilidade é a porta de entrada dos corruptores. Aproximam-se do político e se tornam facilitadores de suas vontades e necessidades: empregos aos parentes; viagens em jatinhos; presentes caros etc.
É possível acabar com a corrupção? Isso depende de reforma política. Enquanto perdurar o atual sistema político, contaminado por 21 anos de ditadura militar, como a isonomia de representações estaduais no Senado, os ratos da corrupção haverão de trafegar à vontade pelos buracos do queijo suíço das maracutaias.
O Brasil deixará de ser a casa da sogra quando nossa indignação se converter em mobilização e proposta.
* Frei Betto é escritor, autor de ‘Batismo de Sangue’.
Deixe seu comentário
Nenhum comentário ainda.











