Por Robson Leite

A construção aqui na terra da tão sonhada civilização do amor, prometida pelo Cristo no Evangelho e conclamada por nós na oração do Pai Nosso, depende fundamentalmente da nossa atitude. O rompimento com os valores consumistas do mundo moderno e o pensamento voltado para o coletivo em detrimento do individual são elementos fundamentais nesse projeto. Mas, para vencermos essa batalha, em especial no nosso país onde testemunhamos constantemente crises éticas em todas as esferas e camadas sociais, precisamos refletir o aspecto social e político dessa terrível inversão de valores que vemos em nosso “mundo moderno”.

A questão da ética vem preocupando a nossa Igreja da América Latina – e especialmente o Brasil – há muito tempo. O documento da CNBB de número 50 foi originado na 31ª Assembléia Geral dos Bispos em Itaici-SP (1993) e as suas constatações são tão atuais que assustam. Os apontamentos colocados pelos Bispos neste documento e os seus impactos na sociedade são a triste percepção da imensa crise ética em que o País está mergulhado. Crise ética que somente ajuda àqueles que estão na vida pública para se beneficiarem. Digo isso porque para essas pessoas, “quanto pior, melhor”. E é fácil perceber isso quando dizemos coisas do tipo: “Não adianta, as pessoas que lá estão só querem o seu benefício próprio”, ou pior ainda: “Não existe político honesto. Todos estão lá para se beneficiarem”. Essas afirmações nos alienam e tornam o processo de participação do cidadão na política algo inatingível. E o problema só tende a piorar quando observamos as discussões do nosso dia-a-dia. Frases do tipo “Quem pode, pode” ou ainda “é dando que se recebe” retratam com fidelidade o estabelecimento das relações reinantes em nosso País. Quantas vezes percebemos pessoas utilizando essas frases no trabalho, na igreja e na faculdade e quase sempre concordamos ou nos omitimos? Como iremos construir um País melhor se não conseguimos perceber a diferença entre “Direitos e Privilégios”?

Outro ponto fundamental da crise ética é a forma como a sociedade atual prioriza o “eu”. Somos constantemente impulsionados pela mídia e pela sociedade para colocar o nosso prazer em primeiro lugar. O outro pouco importa. Um belo exemplo para a nossa reflexão é a propaganda de cigarros reinante na década de 80 e 90: “O seu prazer em primeiro lugar”.

Essa, definitivamente, não foi a mensagem de Cristo. Não podemos ser produtos do meio. Somos e seremos sempre dotados de senso crítico e precisamos questionar sempre se o que vemos, lemos e compramos de uma maneira geral é bom para todos. Muito me entristece quando vejo a lógica perversa de alguns comerciais de TV que anunciam, em horário popular, carros que ultrapassam o preço de cem mil reais. Quantas pessoas em nossa sociedade podem comprar um carro desse valor? Qual o objetivo desse anúncio em horário popular senão o de despertar o desejado desenfreado em sonhar com o consumo desse carro? Será que é nisso que depositamos os nossos sonhos?

Essa situação que cito acima me faz recordar de um jovem que foi meu aluno. Infelizmente, o perdi para o tráfico de drogas. Ao reencontrá-lo, em uma visita para palestrar em uma comunidade carente, quando ele já estava trabalhando para o tráfico, perguntei-o porquê ele havia ingressado no mundo do crime. Sem saber o que me dizer ele afirmou apenas uma frase que até hoje martela a minha cabeça: – “Ah professor, eu também quero ter um carrão igual ao daquele pagodeiro famoso que foi preso recentemente”.

Quem foi que ensinou a esse jovem que o “ter” é mais importante que o “Ser-humano”? Será que os valores, ensinados cotidianamente pela nossa televisão, são os melhores para educarmos os nossos filhos?

Infelizmente, o jovem que cito acima morreu há cerca de três anos em um confronto entre a polícia e os traficantes na comunidade onde ele morava. Será que era ele o verdadeiro bandido a ser procurado e preso ou, na verdade, esse jovem era mais uma das vítimas de todo um sistema complexo e perverso que mata, aliena e destrói?

Eu não tenho dúvidas que esse capitalismo fundamentado na ótica egoísta do consumo que ensina a avaliarmos as pessoas pelo o que elas têm de patrimônio vai destruir, mais cedo ou mais tarde, o nosso planeta. E nós, infelizmente, ficamos passivos parados observando a nossa sociedade se destruir sem, ao menos, refletirmos sobre as possibilidades de mudança desse cenário.

Ou mudamos o mundo ou, infelizmente, o mundo mudará a nossa vida. E, infelizmente, essa mudança será para pior. Para bem longe do Reino de Deus que o Cristo nos prometeu no Evangelho.

Texto publicado no Jornal O Mensageiro.

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