Por Miguel Pereira*

Sob a presidência de Dom Orani Tempesta, Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e presidente da Comissão Episcopal para a Educação, Cultura e Comunicação da CNBB, e contando com a participação do padre Leandro Cury e dos professores da PUC-Rio Angeluccia Habert, Ney Costa Santos, Sérgio Bonato e Miguel Pereira, o júri do Prêmio Margarida de Prata da CNBB decidiu conceder o troféu na categoria de Longa-metragem ao filme “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”, na de Documentário a “Duas vidas e uma só causa”, na de Curta-metragem a “O som do tempo” e uma Menção Honrosa a “O advogado das almas”, em reunião realizada nos dias 16 e 17 de junho, na PUC-Rio. Considerou o júri que esses filmes representam em suas narrativas valores dignos de destaque e merecem a atenção do público como obras de interesse para a discussão de temas relevantes para a nossa sociedade.

No caso de “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”, realizado por cineastas formados em oficinas e cursos de cinema de organizações não-governamentais, destacou-se o fato de serem cinco pequenas histórias, concebidas e narradas por jovens moradores de cinco favelas do Rio de Janeiro, que dão uma visão diversificada e realista do drama que essas comunidades atravessam em seu dia-a-dia. O que resulta dessa abordagem, fundada na experiência existencial dos jovens realizadores, é bem diferente daquela que usa a favela como tema e a estigmatiza como um lugar de violência e crime. O olhar presente no filme não esconde os problemas. Ao contrário, busca fabular sobre as condições da vida que numa história aparecem como um trágico inevitável, no episódio “Concerto para violino”, de Luciano Vidigal, ou como exemplo de superação, em “Fonte de renda”, de Manaíra Carneiro e Wagner Novais. Os outros três episódios estão mais para a observação de um desejo de solução humanística da vida. É encantadora a atitude do filho que quer dar ao pai um presente de aniversário e a solução final encontrada no episódio de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, “Arroz com feijão”, assim como a festa de confraternização que fecha a história mínima de “Acende a luz”, de Luciana Bezerra. Já em “Deixa voar”, de Cadu Barcellos, a última imagem deixa clara a idéia de que as pontes que servem para unir podem também separar, pois, os territórios dessas comunidades são dominados por criminosos e o poder público pouco faz para mudar a situação.

Já “Duas vidas e uma só causa”, de Tatiana Polastri e Alexandre Rampazzo, busca demosntrar que o sentimento que une as duas irmãs Dorothy é o mesmo: lutar para a superação das condições de existência do ser humano diante das adversidades do ambiente e da vida. Se Dorothy Day foi, nos Estados Unidos, uma ativista na busca de soluções para a superação da fome e da miséria, sendo co-fundadora do Catholic Worker Moviment, Dorothy Stang tornou-se, no Brasil, mártir na defesa da vida em harmonia com a natureza que os pequenos agricultores da Amazônia são capazes de construir.

Em “O som do tempo”, Petrus Cariry nos mostra que estamos pouco acostumados a ouvir. O filme nos repõe essa faculdade como uma escuta do mundo que nos cerca. Não importa se estamos num ambiente ainda pouco mexido pela mão do homem ou se nas cidades de concreto em que a maioria da humanidade vive hoje. Ouvir significa ter atenção, perceber a existência fora de si, e, portanto, respeitar esse outro que nos cerca.

Por fim, “O advogado das almas”, de Rafael Salim e Thaísa Cerveira, é uma experiência de realização coletiva, realizada por estudantes da PUC-Rio, com a participação afetiva do roteirista Joaquim Assis e da Casa da Convivência Nossa Senhora Mãe do Belo Amor. Tem a particularidade de ser um filme todo interpretado por pessoas portadoras de deficiência intelectual. O cuidado para não expor as naturais dificuldades dos intérpretes e ao mesmo tempo o desafio de contar a história de Santo Afonso de Ligório resultou num filme com uma abordagem criativa e experimental que marcou um momento único na vida de cada um que participou dessa experiência única. As imagens emotivas e sensíveis que aparecem no meio dos créditos finais são uma prova evidente de um trabalho vivido com intensidade e dedicação mútua. Um belo exemplo de obra construída pelo afeto voltado ao outro.

*Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.

Texto publicado originalmente no site da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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