Robson Leite (*)

Artigo escrito na Carta Maior em 22/08/2016

1984 foi um ano bastante difícil para mim. Eu tinha apenas 12 anos e havia acabado de perder o meu pai tragicamente. Sempre amei o esporte e passei boa parte das minhas férias daquele fatídico ano tentando curar as feridas causadas pela perda do meu velho assistindo aos jogos olímpicos. Vi tudo o que foi transmitido dos jogos de Los Angeles. Vibrei com a prata do Brasil no vôlei que venceu a seleção dos Estados Unidos por 3×0 na primeira fase, mas infelizmente perdeu na final pelo mesmo placar; chorei com a prata no futebol do time brasileiro e comemorei muito a medalha do Joaquim Cruz nos 800 metros rasos, única de ouro que ganhamos naqueles jogos dentro de um conjunto de oito medalhas que o nosso time conquistou. Naquele momento, apesar da pequena quantidade de medalhas, alcançávamos o melhor resultado brasileiro em competições olímpicas até então. Porém, um resultado creditado à ausência em Los Angeles, em função da guerra fria, da grande potência olímpica e campeã absoluta dos jogos anteriores de Moscou: a poderosa URSS. Entretanto, três coisas me chamaram a atenção na nossa delegação de 1984: primeiro, o fato de nenhuma mulher brasileira ter ganhado medalhas. Segundo, o baixíssimo número de negros brasileiros presentes naquelas olimpíadas. Terceiro, as contundentes críticas dos atletas e jornalistas à absoluta falta de apoio governamental aos nossos esportistas – quase todos os medalhistas brasileiros treinavam nos EUA. Aliás, a “falta de apoio do Governo” era algo muito comum naquela época e soava quase como um “pleonasmo” essa frase.

Escrevo isso olhando, 32 anos depois, ao belo resultado do Brasil nessas olimpíadas, tanto na organização quanto no desempenho dos nossos atletas. Afinal, se já não bastasse a magnitude da nossa diversidade e da nossa cultura mostrada na linda cerimônia de abertura, da beleza natural do Rio de Janeiro e da capacidade do Brasil em planejar e organizar os jogos com sete anos de antecedência, malgrado as recentes dificuldades criadas por aqueles que usurparam o poder através de um golpe no nosso país, temos agora a grata notícia de assistirmos o melhor resultado do Brasil na história dos jogos olímpicos: seis vezes mais medalhas de ouro do que os jogos de 1984 em Los Angeles. Tudo isso graças a uma política acertada dos Governos Lula e Dilma.

O Bolsa Atleta, maior programa de incentivo a atletas brasileiros em nossa história, foi criado em 2005 pelo Governo Lula e possui atualmente quase cinco mil jovens que ganharam uma perspectiva cidadã e de vida através do esporte. O nosso Isaquias Queiroz, que ganhou três medalhas nessa Olimpíada no Rio, é uma prova viva disso: venceu a burocracia e a falta de seriedade de sua federação graças a esse programa do Governo Federal. Filho de uma família pobre e criado pela mãe que era obrigada a trabalhar fora para sustentar o filho, Isaquias tornou-se um vencedor, aliás, “o maior vencedor olímpico da nossa história” exatamente por se tornar o primeiro brasileiro a ganhar três medalhas em uma mesma competição: aqui na Rio 2016. E tudo o que ele queria, ao longo de toda a sua vida, era uma oportunidade. Algo que só foi possível graças aos Governos Lula e Dilma.

A história de Isaquias se repete em diversos outros campeões olímpicos, como a Rafaela Silva do Judô e o Thiago Braz do salto com vara, e continua com outros quase cinco mil atletas brasileiros que se dedicam exclusivamente ao esporte e aos estudos em função desse programa. Atletas que tiveram essa oportunidade gerada no Bolsa Atleta e souberam aproveitá-la muito bem. Cabe destacar que esse programa vinha sendo aperfeiçoado e ampliado a cada ano pelo Governo Federal para outros Ministérios, como o Ministério da Educação, o Ministério de Igualdade Racial, o Ministério de Políticas para Mulheres e o Ministério da Defesa com a participação fundamental das forças armadas. Graças a essas ampliações, a diversidade de atletas passou a acompanhar a diversidade brasileira com homens, mulheres e negras compondo igualmente as delegações em competições internacionais. Um avanço se comparado a composição das nossas delegações de atletas em um passado olímpico não tão distante.

Triste é saber que o Governo Golpista, interessado apenas em atender aos anseios de quem patrocinou o golpe, ou seja, o grande capital representado pela Fiesp, já anunciou o fim desse programa com a suspensão dos editais de seleção de atletas, algo não divulgado pela mídia golpista, talvez para não gerar problemas na votação do afastamento definitivo da Presidenta Dilma no Senado, que deverá ocorrer até o final do mês de agosto.

O desmonte do estado brasileiro e a extinção de importantes programas sociais com resultados bastante palpáveis, como o Bolsa Atleta, ocorrem, em função desse golpe, exatamente no momento em que iniciávamos a coleta dos primeiros frutos de um projeto de nação que está em curso há 14 anos. Tempo muito curto se comparado aos 500 anos anteriores a esse período recente, onde assistimos, sobretudo nos anos 90, à destruição completa da noção de Estado autônomo, independente e soberano no Brasil. Um tempo que, em função da triste conjuntura golpista em que vivemos, ameaça seriamente voltar a existir.

Sigamos em frente na esperança de que o Governo golpista fracasse em suas intenções de destruir o estado brasileiro e os nossos belos e importantes programas sociais. O Brasil é muito maior do que esse governo golpista, impostor e interino. E essa grandeza ficará para a história dos bravos Senadores que, em nome do respeito às suas biografias e à Democracia, votarão contra esse golpe no Brasil na decisiva votação no final de agosto.

Parabéns aos atletas e parabéns ao Presidente Lula e à Presidenta Dilma, que acreditaram no nosso país e nos nossos jovens.

(*) Robson Leite foi Superintendente Regional do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego no Governo Dilma e deputado estadual pelo PT do Rio de Janeiro de 2011 a janeiro de 2014. Atualmente é funcionário concursado da Petrobras, escritor e professor 

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