Por Carlos Henrique Machado Freitas

A cultura a cada dia ganha pauta política, mesmo carente de reflexões, mas ainda assim ganha uma agenda pública dos setores que antes aceitavam o debate apenas como logística pré-eleitoral.

Observa-se, no entanto, que isto criou uma bipolaridade, pois nem os agentes culturais se preocupavam com a questão política e, muito menos os políticos se preocupavam com a questão cultural. Com isso, não se criou uma demanda com objetivos de tratar no campo de estudos uma linha sobre gestão pública de cultura. E o resultado é o que assistimos na imensa maioria das secretarias de cultura tanto municipais quanto a estadual, o que, para nós do estado do Rio de Janeiro, expressa que a organização e idealização das políticas públicas de cultura ainda não saíram do coreto panfletário da velha política coronelista.

O que me parece muito importante é que, de imediato, em pouco tempo de mandato, o Deputado do PT-RJ, Robson Leite, tem demonstrado ser um rigoroso crítico a todos os vícios constituídos por projetos de poder que sempre pautaram os sentimentos e a preguiça dos gestores de cultura, sobretudo esses que passaram a vivenciar o processo a partir dos cargos políticos sem o espírito de servidores públicos.

Desde que assumiu a presidência da cultura da Alerj, Robson Leite vem tendo uma destacada atuação que sinceramente me surpreende. Suas intensas manifestações críticas às arbitrariedades do Maestro Roberto Minczuk no deplorável episódio em que o Maestro demitiu 36 músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira, sua participação na Frente Parlamentar Mista da Cultura mostra que o setor ganhou um representante nas questões da democracia das políticas públicas, o que nos faz acreditar na viabilização de um sonho que se arrasta por anos a fio nas questões pragmáticas e nunca se tornou realidade, acabando por promover muito mais os prefeitos e o governador em seus showmícios disfarçados do que o estímulo às manifestações culturais do estado e dos municípios.

No entanto, gostaria de lembrar que esse processo político não depende simplesmente de mapeamentos ou tendências ideológicas, um parlamentar com interesses concretos não é um animador cultural que reflete sua inteligência pra derrubar antigos dogmas, por mais que suas colocações políticas e ideológicas sejam francamente contrárias às práticas corriqueiras de personalidades políticas.

Se quisermos um volume com significado especial e não de lampejos ou intimidades com o poder, não podemos deixar o nosso pensamento num transe interminável, pois toda a riqueza de nossas idéias e de nossas elaborações estéticas e éticas findam na primeira esquina como é tão rotineiro nessas questões.

Para termos uma relação extremamente fecunda sobre a existência de uma nova pauta política, o debate precisa se manter permanente, complexo e propositivo. Então teremos condições de, enquanto sociedade, não apenas reivindicar, mas ajudar a promover uma relação insubmissa, mas pragmática; com personalidade, mas com inteligência na medida em que espelharmos os nossos interesses concretos em discutir políticas públicas dentro da arena política.

O Deputado Robson Leite em suas declarações tem manifestado o interesse de fortalecer a riqueza e o pensamento da cultura criadora do interior do estado. Como eu já disse, acho que essa conquista deve ser feita em mão dupla, não pode ser tema único de um médium proselitista do campo artístico e nem de nenhum deputado com disposição de ampliar solitariamente o debate. Essa nova política que pode nascer agora tem que refletir não só a compreensão, mas a participação política que corresponda ao sentimento e à vontade dos milhares de agentes culturais, artistas, gestores e produtores para que representam o anseio de uma sociedade que almeja com naturalidade um processo continuado de políticas públicas que realmente mereçam este imperativo.

Publicado originalmente no Jornal Volta Cultural, de Volta Redonda.

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