Por Robson Leite. Texto publicado originalmente no Jornal O Mensageiro.

Ao longo dos últimos oito anos, abordamos os assuntos ligados à política e à participação popular aqui nesse espaço do nosso querido Mensageiro. Analisamos diversos documentos, cartas e pronunciamentos da nossa Igreja sobre esse tema tão importante na construção de uma sociedade mais digna, cristã e justa.

Tomo a liberdade de, à luz de todos os documentos da Igreja e do Evangelho, abordar um tema muito importante e essencial no mundo de hoje: a ética na política e a vocação do Cristão diante desta questão.

Muitos dos amigos que estão lendo esta coluna já se depararam com denúncias de corrupção, falcatruas e atitudes “pouco éticas” de diversos políticos que ainda encenam na vida pública do nosso país. E o mais triste é que muitas vezes nós desanimamos sobre esse quadro tão desgastado da relação entre o eleitor e o mandatário. Mas é exatamente sobre isso que eu gostaria de refletir.

Porque existem tantos casos de corrupção no Brasil? Essa pergunta realmente desafia a criatividade de todos nós. Eu mesmo já ouvi milhares de respostas das mais diferentes e inusitadas possíveis e que tentam buscar uma explicação para essa indagação. Deixando esse questionamento de lado, eu mudo um pouco o foco da pergunta para: Qual deve ser a atitude do Cristão sobre a crise ética na Política? Seria o “desânimo” a resposta para esta indagação? Eu sinceramente acredito que não. Qual teria sido a resposta de Cristo diante deste quadro em que vivemos? Será que a sociedade da qual ele fez parte durante a sua vida pública era tão diferente da nossa? Se avaliarmos essa situação devidamente pautada no Evangelho, perceberemos que todos nós temos uma grande parcela de culpa na construção deste tenebroso cenário.

Ao analisarmos a constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, observamos claramente que o princípio básico da construção de uma sociedade passa pela vontade do Povo, que escolhe livremente os seus representantes. Participar deixa de ser convite e se transforma no elemento básico da transformação social dessa realidade em que vivemos. Afinal, o que é ser Político? É, acima de tudo, participar ativamente da sociedade. É buscar o bem comum acima de tudo, inclusive e sobretudo em detrimento de vantagens pessoais. Tudo isso se torna caminho de elaboração de um novo modelo em que os conceitos de justiça e igualdade são elementos fundamentais e motivadores para esse novo tempo. E, sob este cenário, o Cristão tem a obrigação de ser “fermento na massa” deste processo. O ser humano é sobre tudo um ser Político. Ele não vive sozinho. Precisa de sua comunidade para viver e conviver. A começar pela sua primeira e mais importante comunidade: A família. É lá que as primeiras lições de cidadania são ensinadas.

Precisamos ter muito cuidado com o que ensinamos aos nossos filhos. E não adianta belos discursos. É com o exemplo que mostramos exatamente como os nossos filhos deverão agir. Ao devolver o troco dado a mais no caixa do supermercado, não jogar lixo no chão, respeitar a fila do banco, dar importância à participação no processo eleitoral como um eleitor consciente, não aceitar favores ou empregos em troca de apoio político enfim, exercendo a nossa plena vocação cidadã que daremos os primeiros passos na edificação de uma sociedade mais justa e igualitária, ensinando aos nossos descendentes as primeiras lições de cidadania. E isso tudo só depende de nós, Cristãos que sonhamos com um mundo melhor e mais digno para os nossos filhos. Todas essas características são comuns ao Cristão e ao “Cidadão Político”, tornando essas duas palavras praticamente sinônimas.

Tenho certeza que muitos dos leitores amigos estão achando que eu “fugi do assunto”. Que eu poderia estar dizendo para votarmos corretamente, que os “corruptos” que são mandatários hoje foram frutos de votos inconscientes do eleitor e etc. Mas isso todo mundo já sabe. Acredito que seja até óbvio demais. O que eu quero é chamar a atenção para um ponto que, por mais incrível que possa parecer, acaba passando despercebido por nós: fazermos a nossa parte. Em uma reflexão recente no grupo de círculo bíblico que faço parte, um amigo fez o seguinte questionamento sobre alguns casos de corrupção na nossa sociedade: “A quem interessa uma sociedade corrupta, senão ao seu próprio membro que não consegue ser fiel nas pequenas coisas?”. E ainda acrescentou: “Ao mesmo tempo em que nos indignamos com um político corrupto, tentamos convencer um policial na rua a não aplicar uma multa por avanço de sinal”.

Sobre esse tema, eu deixo uma bela passagem do evangelho de Lucas: “Aquele que é fiel nas pequenas coisas, é também fiel nas grandes, e aquele que é injusto no pouco, também o é no muito” (Lc 16, 10-12). Portanto, cabe a nós começarmos, aqui e agora, a fazer a nossa parte, para, dessa forma, construirmos o Reino de Deus aqui e agora através da boa política!

Um grande abraço, a Paz de Cristo e vamos colocar sempre o “Bem Comum acima de tudo”.

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